
Kekule von Stradoniz
Kekulé era um estudioso de química orgânica. Quebrou a cabeça durante muito tempo, tentando combinar seis átomos de carbono com seis átomos de hidrogênio, numa fórmula que explicasse de forma satisfatória as propriedades especiais que esses átomos tinham na molécula do benzeno. Depois de muito pensar e estudar e fazer proposições, sentou-se em uma poltrona e tirou uma soneca à frente da lareira. Ao acordar, lembrou-se de um sonho estranho que tivera: uma cobra mordendo a própria cauda! Imediatamente, associou a forma cíclica dessa visão com o arranjo de átomos que pesquisava. E chegou à fórmula espacial do benzeno. Com essa descoberta, abriu-se um campo enorme para a síntese de novos produtos. Grande parte dos remédios produzidos pela indústria farmacêutica têm como ponto de partida o benzeno.
Temos aí três pontos a considerar:
Kekulé não apenas sonhou com uma fórmula pronta. Ele lembrou-se do sonho, deu ouvidos ao sonho e soube interpretar o sonho, vendo nele a solução para o problema que vinha ruminando havia muito tempo.
Conclusão:O Sonho

Na escuridão da sala do microscópio confocal o pos-doc dizia ao seu estudante: Em biologia celular temos que dar asas à nossa imaginação. Eu, que era o estudante deste episódio, pensei então no sonho de Kekulé, com cobras mordendo a própria cauda. Pensei que talvez não fosse do meu feitio estar sujeito a tão poucos critérios racionais no trabalho de experimentação. Mas de sonhar poucos escapam. Nem sequer os que pelos mundos da matéria viajam consumidos em concentração, num esforço prolongado de entender ou descobrir. Sonham os matemáticos com números e os físicos com partículas sub-atómicas. E esses sonhos, diz-se, inspiraram-nos quando, já acordados, partiram para o real. A ciência e o sonho, pois. Ou a ciência do sonho. Existirá? Sim. Ramificações do estudo do sono, alguns laboratórios acabam com nomes que resumem afinal a vida laboral de todos os cientistas, como o dito de sonho e pesadelo, no hospital do Sacré Cœur, em Montréal. Por outro lado, no Departamento de Neurologia do Hospital-Universidade de Berna foi recentemente descrito o caso de uma mulher idosa que perdeu a capacidade de sonhar após um acidente vascular cerebral. A lesão parece não só restrita a uma região bem definida mas também independente de certas manifestações neuropsicológicas que se pensava estarem associadas à falta de sonhos. Será este o centro tão procurando de onde emanam as imagens do nosso sono? Se é certo o que postulou Freud, os humanos encontraram a "...royal road to a knowledge of the unconscious activities of the mind”. Não sei se isso será bom ou mau. Eu cá continuo a sonhar, à procura de uma seixito filosofal que me permita menos apuros salariais. Até agora pouco me tem saído na rifa. Mas algumas visões são bonitas. Uma delas foi a que tive a sonhar-me sentado no cinetocóro de um cromossoma em metafase, olhando milhares de microtubulos a convergir lá longe, num dos pólos do fuso mitótico.
um abraço a todos
Lauro J. Dalcin