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‘A ciência não pode explicar tudo’


Para o bioquímico, mesmo que se crie vida no laboratório, será impossível provar a inexistência de Deus

Herton Escobar
Entrevista: Pier Luigi Luisi, bioquímico

A ciência não é capaz de explicar todos os fenômenos que levaram ao surgimento da vida na Terra. E nem deveria. “A idéia de que a ciência pode explicar tudo é tão fundamentalista quanto a dos criacionistas que querem banir o ensino da evolução”, diz o bioquímico italiano Pier Luigi Luisi, da Universidade de Estudos de Roma III.

Luisi é um dos maiores estudiosos da origem da vida, tanto pelo aspecto científico quanto cultural e religioso. Ele não tem dúvidas de que a vida é um fenômeno puramente físico-químico, resultado de uma combinação afortunada de moléculas ocorrida 3,5 bilhões de anos atrás. Ainda assim, não acredita que seja possível provar a inexistência de Deus. “Sempre haverá a questão de quem fez as moléculas, e por que existe algo em vez de não existir nada. São questões que não podem ser solucionadas pela ciência”, diz. “Você pode sempre colocar Deus no estágio da criação.”

Em seu laboratório, em Roma, Luisi busca estabelecer e recriar as condições mínimas que teriam levado ao surgimento da vida na Terra. Não é uma receita simples. Segundo ele, a vida teria se formado a partir de uma série de contingências - puro acaso, ou sorte, por assim dizer -, que permitiu que algumas moléculas mais complexas se organizassem na forma de um organismo vivo, auto-suficiente e com capacidade de se reproduzir.

Seria, a princípio, um organismo unicelular, muito mais simples do que qualquer bactéria. Mas que, ao longo de alguns bilhões de anos de evolução, deu origem a todas as formas de vida que conhecemos hoje. Todas compartilhando uma molécula básica: o DNA.

Luisi rejeita uma visão puramente determinista, pela qual a vida seria um produto inevitável da soma de elementos presentes na atmosfera da Terra. “A vida não é um resultado inescapável, mas o produto de várias combinações de fatores e condições”, diz. “Mude qualquer um desses fatores e nós não estaríamos aqui hoje.”

Em recente passagem pelo Brasil, Luisi conversou com o Estado após uma palestra no Instituto de Química da Universidade de São Paulo.

É possível ser um cientista e acreditar em Deus?

Sim, certamente. Você pode dizer que Deus criou o universo e suas regras, e depois deixou que a coisas funcionassem por si só. Nesse sentido, o surgimento da vida, assim como a evolução, seria uma conseqüência das leis da natureza, e o desafio dos cientistas é descobrir quais são os mecanismos desse desenvolvimento. Há um ponto em que as duas coisas podem entrar em conflito, mas é um conflito razoável.

Mas dá para aceitar a evolução e a Bíblia por completo? Como ficam Adão e Eva nessa história?

Você pode aceitar algumas coisas como metáforas. Mesmo teólogos e católicos não interpretam literalmente os relatos da Bíblia; quem faz isso é um grupo radical de criacionistas, que quer acabar com o conceito darwiniano de evolução.

O senhor acredita em Deus?

Não acredito em Deus no sentido tradicional da religião. Desde criança eu sempre questionei o seguinte: tudo bem, mas quem foi que fez Deus? A idéia é de que Deus seria uma prima causa. Mas algo não pode ser criado do nada, e se você não tem nada, você não tem nem mesmo a prima causa para criar alguma coisa. O dilema sobre Deus não pode ser solucionado com lógica. A fé é algo sobre o qual não se decide; ou você tem ou você não tem. E eu não tenho. O que não significa que eu não esteja em busca de respostas para perguntas como “quem sou eu?” ou “qual é o significado da vida?”.

Do ponto de vista científico, então, se Deus não criou a vida, como foi que ela surgiu?

Cientificamente, houve um momento na Terra em que não havia vida. Havia apenas moléculas orgânicas simples, e hoje temos indicações de que essas moléculas simples podem se organizar para formar estruturas cada vez mais complexas. O que se assume é que, ao fazer isso, com a ajuda de alguns milhões de anos, chegou-se a uma estrutura capaz de se auto-replicar (um organismo vivo). Ainda assim, não sabemos dizer como é que uma coisa qualquer apareceu. Nós começamos do ponto em que existe alguma coisa, mas a questão de por que existe alguma coisa em vez de nada não pode ser respondida pela ciência. Temos que partir do ponto em que as moléculas existem; não dá para fazer mais do que isso.

Defensores do “design inteligente” dizem que a vida é algo tão complexo que só poderia ter sido criado por uma inteligência superior - Deus. Há algo sobre a origem e a evolução da vida que a ciência não consiga explicar?

Há várias coisas que não compreendemos. Um exemplo é a consciência: há muitas tentativas de explicá-la, mas nenhuma delas é completamente satisfatória. Agora: será que não são satisfatórias por que somos muito ignorantes ou por que é algo que não pode ser explicado? Não sabemos. Estamos no processo de tentar explicar isso, e eu procuro manter minha mente aberta. Há muitas coisas que a ciência não consegue explicar. A ciência é uma ferramenta boa para algumas coisas, mas não para outras, assim como um garfo é bom para comer spaguetti, mas não para tomar sopa.

Se um dia alguém conseguir criar vida no laboratório, isso seria prova de que Deus não existe?

Seria prova de que vida celular pode ser construída no laboratório, e que para isso não é necessário nenhum poder transcendental. Seria uma demonstração de que a vida é uma propriedade química, que deriva da justaposição de moléculas que não possuem vida, como os ácidos nucleicos. Não seria, de forma nenhuma, prova da inexistência de Deus porque, como eu disse antes, você pode sempre colocar Deus no nível da criação e dizer que foi Ele quem fez as moléculas.

Qual é a forma de vida mais simples que conhecemos?

A célula. E as células mais simples possuem cerca de 500 genes, incluindo bactérias e outros organismos unicelulares. Há mais de um organismo desse tipo, mas nenhum com menos que 500 genes, o que implica em centenas de outras proteínas e dezenas de milhares de outros componentes celulares.

Mesmo os organismos mais simples, então, são extremamente complexos biologicamente?

Sem dúvida. E é justamente essa complexidade que nos leva a crer que as células primordiais deviam ser muito mais simples do que isso. É inconcebível que a vida já tenha começado com centenas de genes. A teoria - não comprovada, mas bastante razoável - é que a vida começou com organismos muito simples, que precisaram evoluir e se defender a medida que o ambiente se tornava cada vez menos permissível, o que implicaria no desenvolvimento de novas enzimas e mecanismos de defesa.

Todas as formas de vida são derivadas de um único organismo primitivo, ou é possível que tenham surgido várias formas de vida em momentos diferentes?

A idéia é que tudo começou com uma única família celular chamada LUCA (sigla em inglês para “último ancestral universal comum”). Mas essa não é a origem da vida, é um organismo unicelular extremamente complexo, com um genoma completo, do qual se originaram as formas de vida que conhecemos hoje. Para chegar a esse LUCA, entretanto, seria preciso passar por protocélulas muito mais primitivas.

É possível, então, que várias formas de vida primitiva surgiram, mas só as células LUCA tiveram continuidade?

Exatamente. E mesmo que houvesse vários tipos de LUCA, a família que se multiplicava com mais rapidez prevaleceria. Se você tem um nicho em que dois organismos competem pelo mesmo alimento, o mais fraco acaba desaparecendo.

Com base no que sabemos sobre a vida na Terra, o que é possível prever sobre vida em outros planetas?

Não temos nenhuma evidência experimental de que exista vida em outras partes do universo. Sabemos que há planetas distantes com ambientes que são consistentes com a existência de certas formas de vida, e há muita gente estudando e procurando sinais de vida em lugares como esses, mas nada foi encontrado até agora.

É claro que, como bom cientista, o senhor não pode afirmar algo que ainda não foi provado. Mas qual é a sua percepção pessoal sobre isso? Será que não há vida lá fora ou apenas não fomos (ou somos) capazes de detectá-la?

De fato, como cientista, não posso responder essa pergunta. Não há como negar que algo desse tipo possa existir, mas o fato de haver milhões ou bilhões de possíveis mundos lá fora não significa que haja vida neles. É o que chamamos de situação indeterminada. As contingências necessárias para que a vida unicelular dê origem a vida multicelular são quase um milagre. E o surgimento de vida no nível do ser humano seria outro milagre. A probabilidade de isso acontecer em outros lugares é uma das fantasias da mente humana e sou a favor de programas como o SETI (Search for Extraterrestrial Inteligence); é uma aventura maravilhosa. Mas em termos científicos, se você me perguntar, a probabilidade de encontrarmos outra civilização capaz de se comunicar conosco é zero.

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